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terça-feira, 21 de agosto de 2012

A viagem do Elefante - Análise


HISTÓRIA
O elefante Solimão pertencia ao império português. O animal vivia em Lisboa, aos cuidados de Subhro, o cornaca (condutor de elefantes). A viagem do elefante tem início quando o rei de Portugal, D. João III, precisava com urgência de uma presente de casamento para o herdeiro do trono dos Habsburgo, arquiduque austríaco Maximiliano II. Daí ele lembra de ter recebido um elefante indiano uns anos antes, que para ele já não tinha utilidade.
Nessa nova etapa, Solimão e Subhro terão as identidades mudadas. O elefante passa por uma boa lavagem e recebe novas roupas. Ele e seu condutor terão os nomes alterados. A mudança de identidade não os agrada. Passam a se chamar Salomão e Fritz. Fritz é um nome comum na Áustria, mas será o único com um elefante.
O cornaca tem grande carinho pelo elefante. Os dois viajam pela Europa de Lisboa a Espanha, de barco para Génova e atravessam as apertadas passagens dos Alpes no Inverno para chegar a Viena. A partir de então, o narrador passará a contar a história da longa viagem empreendida por Salomão e Fritz, primeiramente de Portugal a Espanha, onde se detinha a comitiva de Maximiliano II, e de Espanha a Áustria, incluindo-se aí uma perigosa viagem marítima pelo Mediterrâneo e uma quase suicida travessia dos Alpes.
CARACTERÍSTICAS
“A Viagem do Elefante” aparenta uma simplicidade e uma linearidade que parecem destoar da obra do autor. A história serve apenas como pano de fundo para que José Saramago exercite seu mais fino humor e sua mordaz ironia à burocracia de Estado e à corrupção intrínseca dos indivíduos.
Assim, não foi casual a escolha de um elefante como personagem central do livro. É Solimão (ou Salomão) que move a burocracia de um Estado inoperante, muito mais preocupado com sua perpetuação e imagem, do que com sua eficiência junto às necessidades de seu povo, e é em torno e em função dele que se destacará toda uma comitiva e para qual se contratarão funcionários que possam suprir suas necessidades particulares e tornar possível e segura sua viagem.
Solimão é, desta feita, o próprio Estado, cuja ineficácia burocrática José Saramago discutiu em livros como “Todos os Nomes” e “Ensaio sobre a Lucidez”, dentre outros. Subhro (ou Fritz), o cornaca, por sua vez, constitui-se como personagem complexo: indiano de origem, emigrou para Portugal acompanhando Solimão, a quem trata, treina e guia.
Apesar de servir a seu soberano, seja este o rei português ou o arquiduque austríaco, é dado a arroubos de autonomia, e chega a contestar e ironizar seus superiores hierárquicos. Sabendo-se fundamental aos interesses do seu governo, considerando ser o único a conhecer as manhas e artimanhas de Solimão, Subhro emite suas opiniões próprias e, em nome do bem-estar do elefante (e, consecutivamente, dos interesses de Estado), chega a impor condições para a viagem.
Entretanto, como todo ser humano, deixa-se levar também por seus interesses próprios e, sempre que pode, usa do Estado (no caso, Solimão) para obter lucros e benefícios pessoais, como no episódio em que passa a vender pelos do animal a uma população crédula depois de ter usado o paquiderme para forjar um milagre – uma clara referência ao momento em que a história é ambientada, quando na Europa eclodiram os movimentos da Reforma Protestante e da Contra-Reforma Católica.
PARTES DO LIVRO
Primeira parte         
Início da viagem, quando o rei de Portugal resolve se desfazer do elefante que já não lhe tinha utilidade e estava sujo e abandonado. Como pretexto, aproveita para dá-lo como presente de casamento ao arquiduque da Áustria. Além de se livrar dos gastos com o paquiderme o monarca aproveita a oportunidade para dar um presente exuberante.
Segunda parte          
O arquiduque aceita o presente. Agora eles precisam tomar as providências para o transporte do elefante, que seguirá acompanhado do cornaca, Subhro.
Terceira parte          
A viagem é iniciada. Parte a comitiva formada por Subhro, dois ajudantes, homens do abastecimento, carro de bois com água, pelotão de cavalaria, carro da intendência puxado por mulas. A viagem é vagarosa pois dependem do ritmo dos bois e precisam aguardar os longos banhos do elefante. Subhro, que entende do cuidado com os animais, precisa expor suas ideias, mas com cuidado para não desrespeitar a autoridade do comandante. O cornaca sugere que consigam, de algum proprietários das redondezas, mais uma junta de bois para acelerar a viagem.
Quarta parte
Nessa parte eles irão colocar em prática a ideia do cornaca. Eles encontram uma propriedade de um conde, em uma aldeia.
Quinta parte 
Eles passam por um temporal, inesperado na época de verão. Agora, terão que se abrigar nas aldeias. Em uma delas, é discutido ao redor de uma fogueira aspectos das religiões. É contada a história do deus com cabeça de elefante – Ganesha. Os aldeãos começaram a acreditar que o elefante era um deus. Eles trataram de informar o padre local. Pela manhã, foi feito um exorcismo em Salomão. Ao final dessa parte um nevoeiro toma conta do local, trazendo transtornos para alguns ajudantes que se perdem.
Sexta parte   
O comandante expressa saudades da família. Será o gancho que o autor terá para acrescentar nessas lembranças as aventuras literárias do Amadis de Gaula (novela de cavalaria). Os viajantes não passarão por Castela. Prevenidos, eles vão até Castelo Rodrigo, seguindo orientações de carta enviada ao arquiduque. Ela indicava que uma força militar espanhola ou austríaca estaria no local a espera deles.
Sétima parte 
A caravana portuguesa chega antes dos espanhóis e austríacos em Castelo Rodrigo.
Oitava e nona parte 
O destaque é para a expectativa dos portugueses pela chegada da suposta tropa inimiga. Ao chegarem os austríacos querem levar o elefante. O comandante aceita somente se sua tropa puder ir junto até Valladolid, para entregar o presente pessoalmente.
Décima parte
As duas tropas viajarão juntas. A vontade do comandante austríaco era de levar o elefante sem a companhia dos portugueses para ganhar o mérito sozinho.
Décima primeira parte        
Acontece a chegada a Valladolid. É ordenada a troca do nome do elefante e do cornaca, por serem difíceis de pronunciar. A viagem continuará por territórios espanhóis e italianos. No caminho acontece um suposto milagre do elefante. Ele teria se ajoelhado diante da catedral de Pádua. Um milagre fabricado pelo cornaca, que adestrava o animal. A etapa seguinte é enfrentar o desfiladeiro de Brunir e em seguida viagem fluvial. Pelo caminho, Solimão era aplaudido, virando um eficiente instrumento político. Outro “milagre” acontece na chegada a Viena. O elefante salva uma menina de cinco anos. Ele evita que seja pisoteada por ele mesmo, pegando-a com a tromba e devolvendo aos pais.
Décima segunda parte        
A morte do elefante é citada na abertura do capítulo. A causa é desconhecida. Após ser esfolado, cortaram suas patas dianteiras que após a higienização foram servir de recipiente para depositar bengalas e afins na porta do palácio. Subhro recebeu generosa quantia em dinheiro do arquiduque e o usa para comprar uma mula e burro. Ao comunicar a morte do animal aos reis de Portugal, tratando o elefante como um herói, a rainha Catarina (que só pensava em se livrar de

"A Viagem do Elefante" é uma metáfora da vida humana - José Saramago


"A Viagem do Elefante" é uma metáfora da vida humana - José Saramago
© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. 05 Nov, 2008, 14:51
** Ana Nunes Cordeiro, da Agência Lusa **
Lisboa, 05 Nov (Lusa) - Existiu, no século XVI, um paquiderme indiano que caminhou de Lisboa a Viena, ao qual José Saramago chamou Salomão e cuja história conta no seu novo livro, "A Viagem do Elefante", uma metáfora da vida humana.
"O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI, em 1550, 1551, 1552. E, portanto, o elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, e o que o livro conta é isso, é essa viagem", disse o escritor, em entrevista à Lusa.
Apesar das mais de 250 páginas do livro, uma edição da Caminho que estará quinta-feira nas livrarias, Saramago considera-o um conto, e não um romance, "porque lhe falta o que caracteriza em primeiro lugar um romance: uma história de amor -o elefante não conhece uma elefanta no caminho - e conflitos, crises", argumentou.
Para este novo livro, o escritor não encontrou informação histórica suficiente "para dar consistência a essa viagem, porque alguma coisa teria de acontecer enquanto a viagem durou, e durou meses", pelo que lhe restou "a invenção, fabricar uma história".
"Os dados históricos eram pouquíssimos e o que há tem que ver principalmente já com o que se passou depois da chegada do elefante à Áustria. Daqui de Lisboa até lá, não se sabe o que aconteceu. Sabe-se, ou parte-se do princípio de que foi de Lisboa até Valladolid - onde o arquiduque era, desde há dois ou três anos, regente, em nome do imperador Carlos V (de quem era genro) -, que embarcou no porto da Catalunha para Génova e que tudo o que não foi esta pequena viagem de barco foi, como costumamos dizer, à pata", resumiu.
Teve conhecimento da história "há uns anos, já bastantes", em Salzburgo, cidade a que se deslocou a convite da universidade e onde foi recebido pela leitora de português Gilda Lopes Encarnação.
"Creio que no próprio dia da minha chegada fomos jantar com outros professores a um restaurante que se chamava `O Elefante`. O simples nome do restaurante não era suficiente para despertar a minha curiosidade, mas a verdade é que lá dentro havia uma escultura relativamente grande representando um elefante e havia, sobretudo, um friso de pequenas esculturas que, entre a Torre de Belém, que era a primeira, e outra de um monumento ou edifício público que representaria Viena, marcava o itinerário do elefante entre Lisboa e Viena. Perguntei-lhe o que era aquilo, ela contou-me e, naquele momento, eu senti que aquilo podia dar uma história", relatou.
Começou a escrever em Fevereiro de 2007, altura em que já estava bastante doente, com um problema respiratório, escreveu "umas 40 páginas" e parou, porque a doença se agravou, e acabou por ser hospitalizado durante três meses, tendo chegado a pensar que não terminaria o livro. Mas recuperou, regressou a casa em Fevereiro deste ano, embora "mal" - "de certo modo, uma sombra de mim mesmo", observou -, pôs-se logo a escrever e acabou-o em Agosto, no dia 12.
"[Contei esta história] em primeiro lugar, porque me apeteceu, e em segundo lugar, porque, no fundo - se quisermos entendê-la assim, e é assim que a entendo - é uma metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas", referiu.
"Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante - que, depois de tudo aquilo, acaba de uma maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto - no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso", defendeu.
Sobre a epígrafe do livro, o prémio Nobel da Literatura português sustentou que esta "é muito clara quando diz `sempre acabamos por chegar aonde nos esperam`".
"E o que é que nos espera? A morte, simplesmente. Poderia parecer gratuita, sem sentido, a descrição, que não é exactamente uma descrição, porque é a invenção de uma viagem, mas se a olharmos deste ponto de vista, como uma metáfora, da vida em geral mas em particular da vida humana, creio que o livro funciona", comentou.

terça-feira, 19 de junho de 2012

video 
O trabalho realizado pelas minha queridas alunas da oitava série do conexão.

domingo, 15 de abril de 2012

FERNANDO PESSOA E SEUS HETERÔNIMOS


FERNANDO PESSOA E SEUS HETERÔNIMOS

Importante!

Vocês já estão no último ano, um passo para a Universidade. Têm que ter o pensamento crítico! Saber discernir cada heterônimo de Fernando Pessoa é um passo muito relevante!
Então, mãos a obra! Carlos

MODERNISMO PORTUGUÊS

Marco inicial do Modernismo português: publicação de Orpheu, 1915 – revista trimestral que teve apenas dois números publicados (participação do brasileiro Ronald de Carvalho)
 Principais poetas: Mário Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Fernando Pessoa.

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (Fernando Pessoa)
·         Lisboa – 1888-1935
·         Escreveu em diversas línguas
·         Multifacetação do sujeito:

Personalidades literárias (Coelho Pacheco, Alexandre Search, Vicente Guedes, Charles Robert Anon),

Heterônimos (Álvaro de Campos, Alberto Caieiro, Ricardo Reis)

 Semi-heterônimo (Bernardo Soares)

Ortônimo (Fernando Pessoa)

Heteronimia: podemos considerá-los outros EUS que habitam o poeta – inclusive, tais “eus” possuem diferentes  biografias, traços físicos, profissões – a mais importante característica: cada heterônimo possui um tipo de abordagem/visão de escrita.
"O desdobramento do eu é um fenômeno em grande número de casos de masturbadores", escreveu Pessoa.

Antônio José Saraiva: “A sua obra, como já foi dito, é uma literatura inteira, isto é, um conjunto de autores a que ele chamou os seus heterônimos, cada um dos quais tem um estilo e uma atitude que os distingue dos mais.”

Luís Augusto Fischer: “É como se esses eus múltiplos e diferentes explodissem dentro do artista, gerando poesias singularmente diversas.”

Álvaro de Campos
“Multipliquei-me, para me sentir
Para me sentir, precisei sentir tudo. (...)
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente”

Álvaro de Campos
 > Engenheiro, formado em Glasgow
> Homem voltado para seu tempo – exaltação da modernidade: máquinas, multidões, velocidade - associação com o Futurismo
> Questões existenciais/metafísicas
> Angústia
> Melancolia
> Indignação (falsidade, valores)
A lucidez: Engana-se quem pensa que Álvaro de Campos é emoção, sistema nervoso, febre; ele é, principalmente, lucidez.
“[...]
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele de que muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem.
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar no comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram me converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.” Álvaro de Campos

Ode triunfal
À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!  (...)
Porque o presente é o todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas  das luzes elétricas
Ah,poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último modelo! (...)
Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.

Alberto Caeiro
> Considerado o mestre dos outros heterônimos
> Foge do conhecimento dos livros, de teorias filosóficas e científicas - antimetafísico
> Retrata o campo exaltando a natureza - viver simplesmente
> Linguagem coloquial
> O Guardador de Rebanhos (49 poemas)
I  - Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho. (...)
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural

V - Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que eu penso do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso. (...)
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

VI - Pensar em Deus é desobedecer Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou…
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos

Ricardo Reis
 > Amante das culturas grega e latina.
 > Criador de odes
 > Valoriza a vida campestre
 > A passagem do tempo
 > CARPE DIEM
 > Morte como destino inevitável
 > Considerado o heterônimo clássico de Pessoa
 > Vida equilibrada, sem exageros
 > Presença da mitologia pagã

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente (...)
Amemo-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.”

“Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada!”

“Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje. (…)
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?”

“Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
o dia, porque és ele.”

Fernando Pessoa
> Ortônimo (ou heterônimo)
> Mensagem (publicada em 1934, é a única obra que o poeta viu ser lançada, um ano antes de sua morte) – canta os mitos e heróis passados de Portugal.
> A obra Mensagem está dividido em três partes: e
- 1a. Parte - Brasão: conta-se a história das glórias portuguesas
- 2a. Parte - Mar Português: são apresentadas as navegações e conquistas marítimas de Portugal
- 3a. Parte - O Encoberto: o mito sebastianista de retorno de Portugal às épocas de glória é o foco principal

X - Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.

> Saudade
> Solidão
> Nostalgia
> Melancolia
> Tédio
Quando Ela Passa
Quando eu me sento à janela
P’los vidros  que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa… passa… passa…
Lançou-me a mágoa sem véu: -
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.
Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa… não passa…

AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Bernardo Soares
> Considerado pelo próprio Fernando Pessoa um “semi-heterônimo” - mistura os estilos do ortônimo (ou heterônimo) Fernando Pessoa e do heterônimo Álvaro de Campos